Gaul

Uma lua vermelha brilhava incandescente, ofuscando as estrelas e tornando o resto céu escuro além das Montanhas Gélidas. Era uma Lua de Sangue e os goliath da tribo Winterwolf acreditavam que este era um momento de mudanças. Gaul, chefe da tribo, sabia que sua hora tinha chegado. Como ele sabia, já era outra estória. Mas a lua escarlate era um bom presságio. Já estava velho e, como todos os velhos, só lhe restava olhar para o passado. Fora um bom guerreiro, um bom chefe e um bom pai. Sua única tristeza era Torgana.

Gaul tinha cinco filhas. Todas poderosas, valentes e dignas. Nenhuma seguiria a outra, ele sabia. E cada uma teria que sair e buscar sua própria tribo para liderar. Mas sabia que cada uma morreria pela outra. Tinha muito orgulho delas.

Já se casara 3 vezes antes e havia sobrevivido todas as suas esposas. Sua quarta esposa, estava grávida. Ela era velha, não tanto quanto ele, mas muito velha para ter um parto. Principalmente porque esse seria o seu primeiro. Gaul temia que fosse o último, temia por sua esposa e temia que fosse sobreviver mais uma.

Ele a tomou para si quando Thorn Ragedrake o desafiou pelo controle da tribo. No final do inverno passado, quando as montanhas choravam rios em cascatas. O inverno passado nem se comparava ao terror desse que estava para começar.

Gaul gostava de Thorn, e sabia que ele seria um bom líder. Mas também sabia que o seu desafio era precipitado. Thorn tinha medo que uma das filhas de Gaul o desafiasse primeiro. Especialmente a mais velha, Jokarda, mesmo ela sendo dez invernos mais nova do que ele. Jokarda certamente teria feito o desafio no inverno anterior se não tivesse engravidado. Mas Thorn não queria ser liderado por uma menina que carregou no colo. Gaul, ao conhecer Jokarda em combate, já não partilhava desse preconceito.

O desafio custou a Gaul um olho e passou a mancar daquele dia em diante. Mas no final, como era de se esperar, Thorn foi derrotado, e Gaul ficou com sua mulher, sua caverna e sua arma. Assim reza o Costume e assim que tem que ser. Desonrado, Thorn abandonou a tribo e nunca mais foi visto. Foi assim que Torgana veio a ser sua esposa. Desnecessário dizer que Torgana nunca o amou.

Gaul viu que outros estavam observando a lua também, notou que quanto mais ela subia no céu menos vermelha ficava. Estavam todos ali menos sua esposa, sua filha e seu neto, que estavam em sua caverna. Duas luas atrás o shaman Brokenfang disse que Torgana não deveria mais andar, só repousar. E assim o foi. Jokarda veio para lhe fazer companhia. Já que estava com o seu bebê e não podia ficar longe dele. O bebê de Jokarda era um menino guloso e obeso, porém mais silencioso do que os outros bebês que Gaul conheceu. Era enorme e só mesmo sua mãe para conseguir carregá-lo.

Desde aquela noite, quando o shaman veio atender Torgana, que Gaul não voltava ao seu lar. Já que Jokarda foi ficar com sua mulher, Gaul achou melhor se afastar. Desde então Jokarda e Torgana ficaram grandes amigas. Brokenfang falou que a gravidez mexe muito com as fêmeas, de qualquer espécie. Devia ser verdade, pois Torgana também culpava Jokarda pela desonra de Thorn.

Gaul notou como todos o olhavam de relance. Se não conhecesse Brokenfang, e Gaul o conhecia a 43 longos invernos, suspeitaria que o shaman tivesse espalhado a notícia. Mas Brokenfang não fazia nada que não fosse importante. E boatos nunca são.

Diziam que mesmo quando era jovem, o shaman já era velho. E senso de humor era algo estranho a ele. Ele já era shaman da tribo antes de Gaul nascer. E desde que conseguia se lembrar, Brolenfang já não tinha dente algum. Riu quando lhe contaram que Brokenfang perdeu todos os dentes quando tentou sorrir uma vez. Mas questionava a braveza ou a burrice de quem fosse falar-lhe isso cara a cara.

A tribo perdeu o interesse em Gaul assim que Torgana começou a gritar. O parto começara. Lembrou de Jokarda, quando seu neto nasceu. Não ouviu-se nenhuma reclamação de sua boca. Mas a parteira tomou um chute tão forte que lhe esvaziou a barriga e ela ficou tossindo sem condições de ajudar no parto. Foi preciso que seu marido e Gaul a segurassem enquanto Brokenfang trazia o bebê. Se Brokenfang tomasse os mesmo golpe que a parteira tomou, provavelmente se partiria em dois. Ainda assim o velho não teve medo.

Sob a lua que perdia o seu tom carmesim, o velho Brokenfang caminhou, amparado por Valiria, para onde Torgana estava. Valiria era a mais nova das filhas de Gaul e, segundo o shaman, a mais sábia. Quando quis juntar-se a eles, Brokenfang olhou-lhe com seus olhos esbranquiçados e opacos. Mesmo tão perto dos berros de Torgana, sua voz soou clara como a lua que estava a alcançar o seu ponto mais alto.

“_Seu lugar já não é mais aqui. Você sabe muito bem!” – Não adiantava discutir com ele, Gaul sabia. Mas daí a ir embora sem saber como Torgana estava, sem saber se seu filho nasceria ou morreria, isso quebrava-lhe todo o espírito.

Talvez fosse verdade então. Nunca tivera dúvidas antes e, sobretudo, nunca tivera medo. Tinha que ir. Sua tribo não iria vê-lo desonrado. Se tinha que ir embora, então que fosse. Os gritos de Torgana tornaram-se insuportáveis. Gaul foi em direção a montanha, já sem olhar para traz. Suas outras filhas vieram dar-lhe um adeus silencioso. Nada foi dito. Era o Costume, sempre o Costume. Seguiu o seu caminho. Mesmo quando os gritos cessaram não olhou de volta. Era a primeira vez que chorava em toda a sua vida adulta. Ficou esperando o berro que um recém nascido faz quando clama seu primeiro fôlego. Ele não veio.

Depois do que pareceu uma vida inteira, ouviu um uivo longínquo. Depois deste seguiram-se outros e mais outros. Como que se os lobos só tivessem notado naqulea hora que a lua estranha que brilhava no céu era a mesma que amavam. Quando caiu em si, Gaul notou que estava correndo. E uivando também. Lágrimas corriam-lhe a face. Imaginou ter ouvido um choro enquanto estava fora de si. Mas isso já devia ser um devaneio de seu velho coração.




Ao longe, quando mesmo que se virasse para ver, já não avistaria mais as luzes nas entradas das cavernas que foram seu lar por toda a sua vida, ouviu os gritos de seu povo. Reconhecia claramente a voz de Jokarda entre a algazarra que soava apenas como um sussurro, tão longe que estava. Sua tribo festejava. Assim reza o Costume e assim que tem que ser.

O bebê estava vivo.

Gaul

Crônicas de Raklot juliocmbaia