Crônicas de Raklot

A Batalha de Dassanter

Já era noite quando os heróis chegaram à orla da Floresta das Aranhas. A travessia pela escuridão havia sido tranquila em sua maior parte, talvez devido à canção entoada por Zanne, a barda, ou quem sabe fosse apenas a sorte, que sorria para Kayron, Gaultak, Arathon, Kristryd, Zanne e Venorik. Era possível vislumbrar parcialmente a lua, que brilhava alta sobre a copa das enormes árvores da antiga floresta. Venorik, que ia à frente, foi o primeiro a perceber a fogueira às margens do rio. Fazendo sinal para que os demais ficassem em silêncio, o drow avançou entre as sombras e de um lugar seguro perscrutou o acampamento sobre o cascalho perto das águas calmas.

Ao redor de uma pequena fogueira, cinco orcs comiam e falavam com em sua língua. Um sexto orc vigiava de pé, ao lado do acampamento. Na margem oposta, a aldeia de Dassanter ainda emanava fumaça dos incêndios causados pelos invasores. Além disso, muitas tendas se espalhavam pelo lugar e orcs, goblins e ogros perambulavam carregando armamentos e víveres. Os dois grandes exércitos se haviam fundido e formavam uma horda vasta, de mais de mil criaturas.

Venorik voltou furtivamente até seus amigos e explicou o que havia visto. Por alguns minutos, os heróis argumentaram para decidir o que fazer. Por fim, decidiram atacar os vigias de forma rápida para que a horda não avistasse o combate. Zanne e Kayron ficaram perto das árvores, usando os troncos como cobertura. Gaultak montou seu cavalo de batalha e se preparou para atacar. Kristryd ficou ao lado de Zanne e disse a Arathon que protegesse Kayron. Enquanto isso, uma sombra rastejava pelo cascalho, na direção dos orcs.

Usando as sombras e habiliade, Venorik esgueirou-se até os orcs, ficando a poucos passos deles sem ser visto, camuflado pelas sombras entre duas pedras. O drow esperou o melhor momento e então rolou para frente e agilmente ficou de pé. As braçadeiras de adagas infinitas brilharam em seus braços e seis adagas mágicas apareceram em suas mãos. Venorik arremessou as adagas e as lâminas atingiram os seis orcs, fazendo-os recuar cegos pelo ataque surpresa. Dois deles tentavam limpar o sangue que cobria seus olhos depois que as adagas cortaram suas testas. Nesse instante, Kristryd arremessou seu martelo de guerra contra o líder do bando, um orc grande com apenas um olho. O martelo atingiu em cheio o inimigo e logo reapareceu na mão direita da anã. Zanne disparou seu arco com habilidade e Arathon avançou empunhando sua espada, enquanto Kayron lançava raios de luz solar contra os orcs. Gaultak cavalgou pelo cascalho e atingiu um dos orcs com ferocidade. Em pouco tempo, os heróis derrotaram os orcs e rapidamente arrastaram os corpos para a floresta.

Um dos orcs foi deixado vivo para ser interrogado. Kayron, Gaultak e Kristryd deixaram Zanne, Venorik e Arathon com o orc, que estava amarrado a uma árvore. Por um bom tempo, Zanne interrogou o orc e Venorik o manteve intimidado. Por um instante o drow perdeu a paciência e atacou o orc e, quando não havia mais o que descobrir a respeito da horda, o matou.

Os demais chegaram e Zanne se adiantou para dizer que a horda estava avançando para o castelo de Dassanter, para onde os sobreviventes do vale poderiam ter fugido depois do ataque. O grupo decidiu então atravessar o rio e viajar rapidamente até o castelo do conde. Venorik usou a bolsa mágica em poder de Kristryd e uma parte do rio ficou congelada, criando uma passagem segura para eles. Kayron e os outros foram para a outra margem e ficaram escondidos num pequeno bosque enquanto Venorik roubava alguns cavalos no estábulo da aldeia. Logo os heróis cavalgavam sob o luar, em direção ao castelo, correndo contra o tempo. Atrás deles, o acampamento da horda ardia graças aos incêndios provocados por Venorik.

Ao chegarem ao castelo de Dassanter, os heróis foram recebidos pelos sobreviventes de Forja de Ferro e Dassanter. Os muros do pequeno castelo estavam apinhados de pessoas, mantimentos e animais. Os poucos soldados do conde dividiam lugar nas muralhas com os membros das milícias das aldeias e havia medo nos olhos das pessoas. O grupo deixou os cavalos fora da torre e entrou no grande salão do conde que estava com as màos sobre uma grande mesa onde alguns blocos de madeira representavam o castelo e a horda vinda do rio. Ao seu lado, sua esposa observava calada enquanto os aventureiros entravam no salão. Outros dois homens estavam perto do conde. Garrik, o capitão da guarda, olhava fixamente o “mapa”enquanto coçava a longa barba cinzenta. O outro homem era Corbin, o bárbaro que se unira aos heróis na floresta e depois desaparecera. Zanne sorriu e então percebeu a incrível semelhança entre Corbin e o conde Ormin. Eram claramente irmãos de sangue.

Os heróis foram bem recebidos, apesar da preocupação nos rostos do nobre e de seus companheiros. O plano do conde era simples, resistir à horda orc enquanto os refugiados eram evacuados por um antigo túnel sob o castelo, que os levaria em segurança até uma passagem nas montanhas do leste. Ele queria que Gaultak e seus amigos fossem com o povo do vale mas Kayron sugeriu que todos os combatentes fossem ao encontro dos orcs para enfrentar sua vanguarda e assim, alguns soldados poderiam retirar as pessoas do castelo muito antes da chegada da horda.

Depois de muita discussão, o conde Ormin decidiu levar seus homens para o campo de batalha. Eles lutariam contra os orcs e depois recuariam, retornando ao castelo. Kayron assegurou ao conde que ele e seus companheiros iriam à batalha e que Pelor iria ajudá-los.

Antes do amanhecer, um pequeno exército maltrapilho cruzou o portão do castelo. Eram milicianos dos vilarejos, um punhado de arqueiros, alguns soldados e aventureiros contratados. Kayron e Gaultak cavalgavam lado a lado enquanto Arathon Krystrid e Venorik os seguiam. Zanne motava um cavalo castanho e procurava por Corbin entre as parcas colunas de homens do vale. O conde surgiu ao lado de seu irmão, montando um cavalo de batalha branco. Usava uma armadura azul ornamentada e um elmo que lhe dava uma aparência de grandeza. Corbin cavalgava ao seu lado e, ao ver Zanne sorriu sutilmente.

O exército chegou a uma grande colina ao amanhecer. Pelor brilhava atrás deles, surgindo timidamente por entre as montanhas. Abaixo, na planície, uma enorme mancha negra avançava para encontrá-los. Os tambores e cornetas dos goblins e orcs soavam amedrontadores e vários homens do vale pensaram em fugir. Porém, o conde avançou adiante das fileiras de arqueiros e levantou sua espada. O que disse não foi ouvido por nenhum dos aventureiros mas os homens do vale gritaram empolgados em resposta. Arqueiros avançaram e dispararam contra a horda, fazendo algumas vítimas. Mais duas saraivadas de flechas caíram sobre os orcs e os urros de dor espalharam-se pelo campo.

Então, o lich surgiu…

A criatura estava sobre uma biga feita de ossos que era puxada por um cavalo morto-vivo. Ao redor do lich, um grupo de orcs avançava e um gigantesco ogro vinha logo atrás. A biga fantasmagórica parou à frente da horda e a gargalhada funesta do lich ouviu-se por todos os lados, fazendo gelar o sangue dos homens do vale.

Corbin apeou e passou à frente dos lanceiros. Levantou seu escudo e sua espada e gritou por sangue. Depois gritou contra os orcs, usando a língua deles. O conde chamou sua cavalaria, pequena mas valorosa e então, um grupo de fazendeiros colocou em ação o plano de Venorik. Quinze ou mais porcos bezuntados de óleo foram levados alguns metros adiante e foram tocados por tochas. Os animais ginchavam desesperados enquanto suas peles queimavam e correram em direção do exército orc. Em segundos, os porcos flamejantes quebraram a primeira linha orc, causando pânico. Corbin urrou e correu, seguido pelos lanceiros do conde. A cavalaria atacou seguindo Ormin e então Gaultak empinou seu cavalo e cavalgou em direção ao lich e seus guardas. Os demais fizeram o mesmo.

Gaultak atacou o grande ogro mas foi derrubado do cavalo com um golpe do mangual triplo empunhado pelo monstro. Kristryd e Arathon avançaram, ficando sempre à frente de Zanne e Kayron. Por um bom tempo, os heróis tiveram dificuldade para vencer os orcs e o ogro, pois o lich atingiu uma área enorme com um feitiço terrível, causando dores terríveis em quem ficasse nas sombras geladas lançadas pela criatura. Venorik corria a pé, atingindo os inimigos com suas adagas mágicas e Kayron usava a luz de Pelor de longe, ainda montado no cavalo. Zanne disparava e cantava uma canção de maldição, que fez com que os inimigos fossem atingidos com mais facilidade por Venorik. Gaultak caiu em vários momentos e por pouco não morreu. Kristryd, no entanto, lutava em meio aos orcs, atingindo-os ferozmente com seu martelo. Venorik conseguiu esgueirar-se atrás do lich e começou a atacá-lo rapidamente, fazendo vários cortes profundos no corpo esquelético do monstro. Um dos cortes destruiu parte do joelho do lich e quando este tentou afastar-se, caiu ruidosamente sobre a relva do campo de batalha.

Gaultak, livre do ogro que quase o havia matado, rugiu como um urso e correu em direção ao lich, mesmo estando bastante ferido. Arathon o seguiu e logo ambos estavam lutando contra a criatura, ao lado de Venorik. Apesar do drow ter causado a maior parte do dano ao inimigo, foi Gaultak, em sua fúria, que cortou a cabeça do monstro.

O crânio escuro do lich caiu rolando pelo chão, gargalhando. Então, os ossos e pertences do monstro viraram pó, deixando os heróis atônitos.

Por ordem de Corbin, os sobreviventes da batalha recuaram colina acima e Venorik gritou chamando os seus amigos. Os heróis e o pequeno exército do conde fugiram de volta ao castelo. O próprio conde, ferido por uma lança, era carregado por um de seus cavaleiros.

Horas depois, os sobreviventes se reuníam no castelo. A horda estava próxima e os refugiados já haviam deixado o lugar. Somente alguns poucos, incluindo a esposa e os dois filhos do conde, ainda estavam perto da entrada do túnel secreto.

Zanne queria ficar e ajudar os arqueiros na muralha mas Kristryd a arrastou sob protestos. Kayron fez uma prece silenciosa a Pelor e, levando um dos filhos do conde no colo entrou no túnel. Era inevitável, Ormin e seu irmão Corbin ficariam ao lado de seus homens, enfrentando os invasores para que o povo pudesse fugir em segurança.

“Não! Nós vamos ajudar! Tem que haver um jeito!”_Gritava Zanne

O conde Ormin olhou triste para os heróis, beijou sua esposa e seus filhos e disse em voz baixa: “Vão. Vão agora.”

Zanne olhava para Corbin e continuava tentando soltar-se de Kristryd.

O conde olhou uma vez mais para os heróis e falou num tom autoritário: “Vão!” Em seguida, quando estava quase fechando a porta de pedra do túnel, foi interrompido por Gaultak.

“Vamos vingar vocês. Vamos voltar e vingar vocês…”_disse o gigante cinzento

Enquanto seguiam pela escuridão do túnel, os heróis puderam ouvir o som de gritos e ordens sendo dadas pelo conde e seu irmão. Os últimos sobreviventes de Dassanter seguiram em silêncio com grande pesar em seus corações. Quando a comitiva saiu do túnel, chegando a um pequeno vale oculto, os sobreviventes se reuniram. Zanne estava enfurecida. Soltou-se de Kristryd, empurrando a amiga e caminhou para longe dos outros. A barda gritou e seu grito ecoou pelas montanhas. Depois caiu de joelhos, esmurrando o chão. Ninguém disse mais nada.

Quinze dias depois, o grande grupo de refugiados, protegido por alguns dos homens do conde e pelos aventureiros, chegou a Kelt. Graças à influência da esposa do conde, os heróis foram recebidos pelo rei Varrim que disse que seus exércitos estavam contendo a horda no vale e que sentia pela morte do conde.

Dias depois, os aventureiros ainda lamentavam a perda de Dassanter e o sacrifício dos irmãos e de seus valorosos soldados.

Gaultak, Arathon e Kristryd decidiram dedicar seu tempo para aprimorar suas habilidades de combate. Venorik, que havia retornado a Kelt, desapareceu no Fosso, o bairro dominado pela escória da cidade, em busca de contatos e tentando manter-se oculto para os muitos inimigos que tinha em Kelt. Kayron tornou-se recluso, passando seus dias nas bibliotecas dos templos e falando aos sacerdotes de Pelor a respeito do templo perdido na Floresta das Aranhas. Zanne, despediu-se de seus amigos e partiu numa longa jornada, prometendo retornar em três meses ou mais. No fim, os heróis acordaram reencontrar-se na cidade em seis meses.

A guerra estava começando no vale de Karmadon, assim como o inverno. E seria um longo e terrível inverno…

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juliocmbaia

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