Crônicas de Raklot

De Volta ao Salão Escarlate

“Eu achei um arco tão bom mas tão carooo!” choramingou Zanne diante de seus companheiros que aproveitavam uma boa refeição na taverna de Dassanter, a aldeia às margens do Esperança.

Nenhum deles pareceu importar-se com a indireta lançada pela barda que, contrariada, sentou-se à mesa. Ninguém falava nada e todos pareciam preocupados com o que fariam a seguir: entrar na Floresta das Aranhas novamente e enfrentar os goblins aliados à horda do norte. Nesse instante, um homem entrou na taverna, indo até o balcão. Era um homem alto e forte vestindo peles cinzentas e carregando armas na cintura. Ele tinha os cabelos raspados nas laterais e um olhar selvagem. O bárbaro parecia estar discutindo com o taverneiro e Zanne levantou-se para ouvir de perto a conversa.
_“Eu sabia que ninguém em Dassanter ia mover um dedo para impedir isso! Enquanto vocês bebem e comem aqui, eles estão cada vez mais perto!”_Disse o bárbaro.
_“Mas amigo, se não conseguiu falar com o prefeito, talvez deva tentar o barão.”_respondeu o taverneiro um tanto assustado com os modos do outro.
_“Eu não vou ficar de braços cruzados enquanto vocês não fazem nada!”_Esbravejou. Em seguida cuspiu no chão e virou-se para deixar a taverna.

Zanne estava no balcão, com uma caneca na mão, que usou como desculpa para aproximar-se. Foi então que a voz trovejante de Gaultak se ouviu na taverna.
_“Ei, esquentadinho. Venha até aqui”.
O bárbaro coçou a barba mal feita e se aproximou dos aventureiros.
_“O barão sabe da horda pois nós já o avisamos.”_disse o goliath.
_“Estamos falando da mesma coisa?”_respondeu rispido o humano.
_“Orcs ao norte do vale?”
_“Não…goblins. Uma horda de goblins na Floresta das Aranhas.”_disse o bárbaro encarando Gaultak. _“Ninguém aqui tem coragem de enfrentá-los e ninguém evacuou esta aldeia ou as demais. Logo eles estarão aqui e não vai sobrar ninguém vivo.”
_“Ninguém? Se você planeja atacar os goblins, conte conosco.”_disse Gaultak levantando-se.
_“Até que enfim alguém com coragem. Me encontrem na balsa no fim da tarde. Atravessaremos o rio e iremos para a Floresta das Aranhas.”

Gaultak concordou com um gesto rápido em sentou-se novamente. O bárbaro virou-se e deixou a taverna. Em sua saída, Zanne lançou-lhe um sorriso que foi respondido com outro. A barda aproximou-se de seus amigos e disse com voz de choro:
_“Eu já lhes disse que encontrei um arco muito bom mas muuuito caro?”

Resmungando, Kristryd pegou algumas moedas em sua bolsa e foi seguida pelos demais. Minutos depois Zanne sorria como uma criança com seu novo brinquedo mágico. Gaultak aproveitou para comprar um cavalo de batalha, algo que ele vinha pensando em fazer há tempos e depois que todos estavam devidamente equipados, o grupo foi até a balsa para atravessar o rio. O bárbaro humano estava lá e se apresentou. Seu nome era Corbin.

Os sete aventureiros atravessaram o esperança uma vez mais e depois de muito argumentar, decidiram viajar até anoitecer, apesar de Corbin dizer que preferia viajar sempre à noite. Depois de muitas horas de caminhada pela lúgubre floresta antiga, Corbin guiou o grupo até uma caverna, usada por ele muitas vezes como base para seus ataques furtivos contra as forças goblins. Ele os deixou lá e partiu noite adentro sem dizer uma única palavra.

Venorik subiu até o topo deu uma enorme árvore pois assim teria uma vista privilegiada para proteger o acampamento. Kristryd, Arathon, Gaultak e Kairon foram dormir dentro da caverna, enquanto Zanne brincava com seu arco mágico na entrada. Horas depois, quando todos haviam adormecido por completo, Venorik avistou vultos na noite. Era uma patrulha goblin.

“Zanne…Zanne…”_sussurou o drow.“Zanne acorde. Goblins na floresta. Chame os demais.”

A barda despertou e concordou assustada, tentando ver algo na escuridão completa da floresta. Ela acordou os demais e em poucos minutos o grupo estava na entrada da caverna. Arathon urrou uma praga em dracônico e sua espada irrompeu em chamas e então os aventureiros conseguiram enxergar os goblins entre as grandes árvores. Arathon, Gaultak, Kairon e Kristryd atacaram com ferocidade, enquanto Zanne lançava flechas com uma precisão fantástica. Venorik saltava de galho em galho usando sua incrível agilidade e suas adagas voavam cortando as trevas do lugar e atingindo os inimigos. O combate porém não foi fácil como os heróis esperavam e em vários momentos tiveram problemas com os goblins.

Depois de uma luta árdua, seis goblins jaziam sobre o chão da Floresta das Aranhas. Os aventureiros estavam bem mas haviam sido pegos de surpresa pois todos eles subestimavam a raça dos goblins e essa pequena patrulha havia dado mais trabalho do que o normal. Entre os pertences dos goblins, Zanne encontrou um mapa mágico e Gaultak um pequeno crânio mágico capaz de apagar as luzes ao seu redor. Logicamente, Venorik ficou com esse item mágico.

Depois de uma boa noite de sono, os aventureiros foram surpreendidos por Corbin, que fez com que se apressassem para seguir viagem. Durante cinco dias desviando do caminho de patrulhas goblins e outros perigos, os sete chegaram ao abismo que cortava a floresta. Corbin arremessou um arpéu com uma corda resistente que prendeu a uma árvore. Venorik caminhou por cima da corda com habilidade e Kairon atravessou facilmente, seguido por Zanne. Quando Kristryd tentou atravessar, a corda presa em sua cintura se rompeu e a anã despencou desesperadamente. Os outros, atônitos, não sabiam o que fazer quando viram sua amiga caída, muitos e muitos metros abaixo. A queda poderia ter matado Kristryd mas a jovem anã conseguiu levantar-se e ficar de pé, apesar de sentir uma dor terrível na perna direita e nos dedos da mão esquerda. Gaultak desceu usando uma corda e levou sua amiga de volta para cima. A perna direita dela estava quebrada e o goliath decidiu colocá-la sobre seu enorme cavalo de batalha, o qual Kristryd apelidou de “miudinho”.

“Não podemos prosseguir assim. Vamos seguir para o norte e atravessar pela ponte de corda que nos levou até o templo em ruínas.” Disse Gaultak.
_“Lá poderemos esperar que Kristryd se cure e só então seguiremos até o acampamento goblin.

Corbin relutou em seguir para o norte mas como o resto do grupo concordava com o goliath, ele apenas caminhou seguindo o abismo. Horas depois os aventureiros chegaram à velha ponte de corda que haviam atravessado semanas antes. Decidiram acampar pois era bem tarde. Enquanto comiam perto da fogueira, Zanne se aproximou de Corbin e começou a perguntar sobre seu passado. O bárbaro, encantado pelo sorriso da barda falou algumas coisas a respeito de seu antigo grupo de amigos.

_“E você…a única humana nessa bando?”_perguntou Corbin sorrindo
_“Todos aqui são únicos. O único tiefling, a única anã, o único drow, o único dragonborn e o único goliath.”_Interrompeu Gaultak.

Corbin olhou fixamente para o goliath enquanto Zanne levantava-se contrariada, indo sentar-se longe da fogueira resmungando alguma coisa parecida com “intrometido…”.

_“Conheci um de sua raça Gaultak. Chamavam-no de Quebra-Pescoços. Ele morreu, irônicamente, com o pescoço quebrado.” _Disse Corbin.
_“Minha raça não vive muito. Somos guerreiros.”_respondeu Gaultak
_“É…ele morreu numa arena em Kelt. No Fosso.”

Venorik sorriu por ter reconhecido Corbin e disse:
“Você fez um bom trabalho naquela noite Corbin. O Goliath morreu rápido.”

Corbin sorriu olhando para Gaultak e recolheu-se entre as peles usadas como capa para dormir.

No dia seguinte, Gaultak exibiu grande destreza, guiando seu cavalo na direção do abismo e saltando sobre ele para pousar pesadamente do outro lado. Os demais, inspirados pelo otimismo do goliath atravessaram a ponte de corda orientados por Kairon.
Uma hora depois os heróis chegaram perto da colina onde as ruínas do Templo Escarlate descansavam. Venorik, que ia na frente, voltou assustado. Chamou Gaultak e Kairon e juntos foram até um lugar seguro para ver a entrada do templo.

Dezenas de mortos-vivos, agora livres, vagavam ao redor do templo, carregando caixas enorme para dentro da estrutura. Em seguida, um portal escuro abriu-se diante da ruína e um batalhão drow saiu por ele, entrando no templo enquanto o portal se fechava.

_“Não podemos com eles.”_Disse Venorik.
_“Podemos. E temos que acabar com eles pouco a pouco, na floresta.”_Disse Gaultak
_“Concordo. Temos que retomar o templo de Pelor antes que seja tarde. A luz de Pelor estará do nosso lado e não seremos atingidos pelos servos das trevas!”_Disse o tiefling decidido.

Depois de discutirem com o resto do grupo, os heróis decidiram ficar na floresta e retomar o templo. Eles encontraram uma pequena caverna que decidiram usar como refúgio até decidirem como iriam enfrentar os drows e os mortos-vivos. Na caverna, Zanne e Gaultak encontraram os restos de algum aventureiro, morto há muito tempo. Além de um pequeno tesouro, eles perceberam que a armadura, uma cota de malha, estava intacta. Kairon pegou a armadura para examiná-la de perto e então algo inesperado aconteceu.

A armadura brilhou, ofuscando a visão dos aventureiros. Em seguida, se desfez e seu brilho tomou conta da armadura do próprio Kairon. Energias mágicas desconhecidas transformaram sua velha cota de malha, dando-lhe um ar imponente, grandioso. Os símbolos e o estilo da armadura fizeram Zanne lembrar de uma velha lenda a respeito de um antigo herói que morreu protegendo sua vila de um perigo muito maior que ele. Segundo a lenda, a cota invulnerável de Arnd decidiu proteger outros heróis em potencial e agora, ela estava com Kairon, o clérigo tiefling de Pelor. Pasmos ao ouvir o relato de Zanne, os heróis admiraram a beleza e grandiosidade da armadura dourada enquanto Kairon não conseguía acreditar no que seus olhos lhe mostravam.

A maré estava prestes a mudar e havia esperança novamente nos corações dos seis aventureiros…

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juliocmbaia

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